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Violência policial junta jovens Macedónios em protestos

Tal como em Portugal, realizaram-se eleições legislativas na Macedónia no dia 5 de Junho. O acto eleitoral, ao contrário dos anteriores, decorreu sem grandes problemas e as organizações internacionais foram unânimes em declarar estas eleições justas e livres, mas o dia não terminaria sem tragédia: por volta da meia-noite, quando os apoiantes do partido vencedor se juntavam na praça central de Skopje a festejar a re-eleição do primeiro-ministro Nikola Gruevski, Martin Neshkovski, de 23 anos, foi espancado até à morte por Igor Spasov, membro dos “Tigres”, as forças especiais da polícia Macedónia.

As razões por detrás deste brutal ataque estão, ainda hoje, no segredo dos deuses, já que Igor, detido pela polícia na passada terça-feira, recusou-se a colaborar com a investigação. O que se sabe é que, de imediato, as autoridades procuraram abafar o assunto, tentando fazer passar o espancamento como um “acidente”. A esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social, controlados direta ou indiretamente pelo Governo, decidiram ignorar o assunto, procurando fazê-lo cair no esquecimento. Felizmente, isso não foi possível, devido a uma imediata e forte reação de algumas centenas de jovens macedónios que, organizando-se via redes sociais, iniciaram no dia 6 o que viria a ser uma série de protestos diários contra a violência policial e a atitude sobranceira das autoridades.

O Governo, por seu lado, continua a ignorar a gravidade do caso e procura ilibar-se. A Ministra da Administração Interna recusa demitir-se, alegando não ter responsabilidades no caso, mesmo que não saiba responder quando lhe perguntam o que faziam elementos dos Tigres entre a multidão na noite de dia 5. O jornal Vreme, um dos poucos media independentes do país, revelou fotos que mostram o alegado assassino seguindo Gruevski pelas ruas, momentos antes do ataque; o canal de televisão A1 revelou igualmente imagens da inauguração duma clínica em 2008 em que se vê claramente Igor Spasov atuando como segurança do primeiro-ministro. A conclusão é simples: as forças especiais da polícia Macedónia estão a ser usadas como segurança privada do primeiro-ministro.

A tentativa de ignorar o caso e as suas responsabilidades, tanto da parte do Governo como da própria Polícia, apenas fortaleceram os protestos, que de dia para dia foram chamando cada vez mais pessoas para a rua. Alguns partidos políticos tentaram associar-se aos protestos, mas foram de imediato postos de lado; agora, os protestantes caminham pelas ruas de Skopje com uma tarja com uma frase tão simples quanto poderosa: não somos um partido. Este grupo cada vez maior de jovens não tem pretensões políticas nem quer uma revolução; quer apenas que seja feita justiça e que os responsáveis paguem pelo crime, seja quem matou Martin Neshkovski ou quem mandou Igor Spasov estar junto do primeiro-ministro nessa noite.


A verdadeira Democracia

Quando se fala em actos de democracia, a primeira coisa que vem à cabeça da maioria das pessoas é o acto eleitoral. As eleições permitem estabelecer a premissa base dum sistema democrático: é o povo quem decide por quem irá ser governado. Através do seu voto, os cidadãos de um determinado país dão legitimidade a um grupo de pessoas para governar o dito país. Nós legitimamos o poder.

O problema começa aqui. Chegados ao topo do poder político, aqueles que dependem de nós para lá chegar esquecem-se rapidamente deste facto, usando todos os instrumentos ao seu alcance para impôr a sua vontade sobre os eleitores, independentemente do que estes pensam. A legitimização do poder não deveria ser usada como uma carta branca, mas é, e tem sido esta atitude dos poderosos perante o poder que tem deteriorado o tecido social, deste e de outros países.

Sócrates e Passos Coelho

Uma bastonada dói o mesmo, seja quem fôr que esteja sentado na cadeira do poder...

Numa democracia real, a polícia não pode ser usada para bater naqueles que pensam de forma diferente. Isso chama-se ditadura, mas por muito que me tentem convencer que isso já não existe em Portugal ou Espanha, eu vejo o assalto policial aos acampados em Lisboa e Barcelona e não consigo encontrar diferenças: é a polícia a bater em quem ousa pensar e falar diferente. Isto, meus caros, não é democracia, por muitas eleições que se façam para legitimar o poder.

Isto tudo para dizer que o verdadeiro acto democrático não é colocar a cruz num boletim de voto e enfiá-lo na urna, como se isso nos validasse como cidadãos politicamente activos; o verdadeiro acto democrático está em cada um de nós, todos os dias, pensarmos por nós próprios, e usarmos as nossas acções e ideias em prol duma verdadeira sociedade democrática. A verdadeira democracia nasce nos acampamentos de Lisboa e Madrid, não no Parlamento. Somos nós a democracia, não eles. Mas enquanto a maioria das pessoas continuar iludida com a farsa eleitoral, montada para satisfazer a nossa ilusão democrática, o fosso que tem sido cavado entre eles e nós continuará a crescer.


O parlamento vai reiniciar, mas o bug continuará lá

Não existe um pingo de responsabilidade nos políticos portugueses. Será talvez uma verdade de La Palisse, mas ontem tivemos um exemplo supremo de como da esquerda à direita não há uma alma que se salve. Os interesses pessoais (nomeadamente de Passos Coelho, a proteger o seu lugar de líder do partido) falaram mais alto que os interesses do país.

Todos sabem que as medidas levadas a votos ontem são fundamentais e inevitáveis. Os políticos portugueses podem ser irresponsáveis, mas não são burros. Não tardaremos a ver alguns dos que ontem votaram contra o PEC a fazer tremendos jogos de cintura para defender estas medidas; é a política no seu pior.

O que mais me exaspera nesta situação é ver a forma como a esquerda empedernida e bloqueada num passado distante ajudou a direita a fazer cair este governo. É-me muito difícil perceber porque votaram num governo PSD (visto que foi isso precisamente que fizeram). A ideia que passam é que se estão nas tintas para quem seja Governo; o que lhes interessa é tentar mais um lugarzito no Parlamento.

No fundo, tudo isto não passa de um jogo de xadrez sujo e propenso às rasteiras, onde os primeiros a serem sacrificados somos nós. Não passamos de peões que assistem a estes jogos de poder e no final ainda celebramos as vitórias daqueles que se dispõem a atirar-nos para um abismo.

Há muita gente contente com o que se passou ontem; eu, sinceramente, não consigo perceber porquê. O país vai parar por uns 3 meses, até o novo Governo tomar posse, e este irá ter de implementar medidas e políticas iguais ou semelhantes às que foram rejeitadas ontem; tudo muda para tudo ficar igual. E entretanto, o tempo perdido servirá apenas para afundar o país um pouco mais. Tanto que o mais certo é que no dia em que tomar posse o novo Governo estará a preparar-se para entregar as chaves ao FMI.