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Portugal é um exemplo a seguir?

Em algumas coisas, sim. Andamos tão habituados a ouvir falar mal do país, seja o massacre noticioso ou político, que nos esquecemos que há coisas boas, e algumas delas até fazem inveja a alguns países bem mais desenvolvidos que o nosso. Vem isto a propósito de um artigo publicado ontem na AOL News, a propósito da política de combate à droga portuguesa e de como a descriminalização do consumo, aprovada há precisamente 10 anos atrás, ajudou a reduzir drasticamente o número de toxicodependentes.

Lembro-me perfeitamente da discussão em torno dessa lei. Foi aprovada sob uma chuva de críticas da oposição conservadora, com Durão Barroso e Paulo Portas à cabeça, que apresentaram um cenário apocalíptico: Portugal tornar-se-ia um ponto de interesse para consumidores, que viriam de todo o lado para viverem o paraíso da droga em que Portugal se transformaria. O número de toxicodependentes e a quantidade de droga vendida iriam aumentar em flecha, levando consigo a criminalidade. Dez anos depois, não só estes cenários estão longe de se confirmar como o contrário está bem mais próximo de acontecer. Em 2008 o número de toxicodependentes caiu para metade dos valores de 2000 e o número de novas infecções anuais de HIV devido ao consumo de droga passou de 2500 para pouco mais de 200.

Claro que esta redução não se fica apenas a dever a esta lei. Punições mais duras para os traficantes, melhor e mais investigação da parte da polícia, assim como a demolição do Casal Ventoso contribuiram fortemente, mas dissociar esta lei da redução do consumo é virar as costas à verdade. Guterres tinha razão e graças à sua insistência num lei polémica e inédita (Portugal foi o primeiro país na Europa a descriminalizar o consumo de droga) Portugal é agora apontado como um caso de sucesso e um exemplo a seguir. Os governos da Dinamarca e da Noruega estão a estudar o caso português e consideram seriamente a possibilidade de aplicarem leis similares. (note-se que continuamos a ser um dos pouquíssimos países a nível mundial em que consumir droga não é crime)

Como não estou em Portugal não sei que impacto esta efeméride teve no país, mas acredito que pouca; provavelmente nenhuma. Os portugueses não estão geneticamente preparados para falar abertamente do que temos de bom (a não ser que seja a comida, o vinho ou as praias). Eu gostava que não fosse assim; gostava que, nesse aspecto, fossemos um pouco mais como os espanhóis, que não têm problemas com o auto-elogio e que não perdem uma oportunidade para enaltecerem o que têm de bom. Numa altura em que tudo o que ouvimos nas notícias está relacionado com crises, sejam elas económicas, sociais ou naturais, acho que não nos ficava mal falar dum sucesso retumbante como este. Se até os escandinavos nos querem copiar, se calhar não somos tão maus como pensamos que somos…

Foto de Marco Carmone

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